
EUA retiram seis vacinas do calendário infantil recomendado; entenda qual é o risco
O governo dos Estados Unidos anunciou nesta segunda-feira (5) uma mudança inédita no calendário de vacinação infantil: seis vacinas deixaram de ser recomendadas de forma rotineira para todas as crianças. A decisão foi tomada pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS, na sigla em inglês), comandado por Robert Kennedy Jr., e ocorre em meio a uma revisão mais ampla da política de imunização incentivada pelo presidente Donald Trump.
Saíram da lista de recomendações universais as vacinas contra gripe, hepatites A e B, meningococo (bactéria causadora de meningites), vírus sincicial respiratório — associado à bronquiolite em bebês — e rotavírus, responsável por quadros graves de gastroenterite. Meses antes, a vacina contra a Covid-19 já havia sido retirada do calendário infantil recomendado.
Com a mudança, que entra em vigor imediatamente, essas vacinas passam a ser indicadas apenas para crianças consideradas de alto risco ou quando houver recomendação médica individual, em um modelo chamado de “decisão compartilhada” entre profissionais de saúde e famílias.
Presidente americano, Donald Trump
Reuters/Jonathan Ernst
Alinhamento internacional, diz governo
Em nota, o secretário de Saúde afirmou que a revisão busca alinhar os Estados Unidos ao que chamou de “consenso internacional” sobre imunização pediátrica. O governo citou países como a Dinamarca como referência, por adotarem calendários com menos vacinas obrigatórias na infância.
“O calendário estava inflado”, escreveu Trump em sua rede social. Segundo ele, os pais continuam livres para vacinar completamente os filhos, e os imunizantes seguirão cobertos pelos planos de saúde.
Hoje, os Estados Unidos passam a recomendar 11 vacinas universais na infância — eram 17 antes da revisão. Para efeito de comparação, a França exige 12 vacinas obrigatórias, enquanto outros países europeus adotam modelos distintos, com maior ou menor número de imunizações indicadas.
Especialistas contestam comparação
A decisão provocou reação imediata na comunidade médica. Infectologistas e pediatras alertam que a comparação com outros países ignora diferenças profundas entre sistemas de saúde, perfis populacionais e circulação de doenças.
“O calendário vacinal infantil dos Estados Unidos é uma das ferramentas mais estudadas e eficazes para prevenir doenças graves e potencialmente fatais”, afirmou o pediatra Sean O’Leary, especialista em doenças infecciosas. Para ele, qualquer mudança deveria ser baseada exclusivamente em evidências científicas robustas.
Pesquisadores da Universidade de Minnesota também contestaram o uso da Dinamarca como parâmetro. Em análise recente, eles destacaram que o país europeu tem população pequena e homogênea, sistema de saúde altamente centralizado, acesso universal e baixa prevalência de doenças infecciosas —condições muito diferentes das encontradas nos EUA.
Críticas também entre republicanos
As mudanças não geraram desconforto apenas entre democratas. O senador republicano Bill Cassidy, médico de formação, criticou publicamente a decisão e afirmou que ela “não se baseia em informações científicas claras, tem pouca transparência e pode gerar medo desnecessário entre médicos e pacientes”.
Para ele, a retirada das recomendações pode enfraquecer ainda mais a confiança na vacinação em um momento delicado, em que as coberturas vacinais infantis caíram no país após a pandemia de Covid-19.
Secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr
AP/Evan Vucci
Histórico recente de recuos
A decisão faz parte de uma série de medidas recentes do governo americano que vêm sendo vistas com preocupação por especialistas. Em dezembro, a Food and Drug Administration anunciou a abertura de investigações sobre possíveis mortes associadas às vacinas contra a Covid-19 —apesar de múltiplos estudos já terem comprovado a segurança e a eficácia dos imunizantes.
No mesmo mês, um comitê técnico reformulado pelo secretário de Saúde suspendeu a recomendação da vacina contra hepatite B para todos os recém-nascidos, outra medida que contrariou práticas consolidadas da saúde pública.
Risco de retorno de doenças
Médicos e entidades científicas alertam que o enfraquecimento das recomendações pode abrir espaço para o ressurgimento de doenças já controladas, como sarampo e meningite, especialmente em comunidades com menor acesso a serviços de saúde.
Nos Estados Unidos, cabe aos estados —e não ao governo federal— decidir quais vacinas são obrigatórias para matrícula escolar. Ainda assim, diretrizes nacionais costumam orientar políticas locais. Diante das novas regras, alguns estados já discutem estratégias próprias para manter calendários mais amplos de imunização.
A preocupação central dos especialistas é que a mudança, ao relativizar a importância das vacinas, amplifique a hesitação vacinal em um país que já enfrenta quedas preocupantes nas taxas de cobertura infantil.
*Com informações da AP e AFP.











