Jak, um participante da pesquisa, em abril de 2023, cerca de seis meses após a conclusão do ensaio clínico.
Tina Thomas
Um estudo publicado nesta quinta-feira (28) na revista científica Cancer Cell apresentou resultados promissores de um novo tipo de terapia contra o câncer de cabeça e pescoço — considerado um dos mais agressivos e difíceis de tratar. Desta vez, os pacientes foram gatos de estimação, diagnosticados com carcinoma espinocelular (HNSCC, na sigla em inglês).
Dos 20 animais que participaram do ensaio clínico, 35% tiveram a doença controlada e apresentaram melhora dos sintomas, com efeitos colaterais mínimos. Para os pesquisadores, a resposta dos felinos sugere que a mesma estratégia pode funcionar em humanos.
Como funciona o tratamento
O medicamento em teste é o primeiro a conseguir atingir de forma eficaz o fator de transcrição STAT3, uma proteína que está presente na maioria dos tumores de cabeça e pescoço e em diversos outros tipos de câncer, sólidos e hematológicos. Bloquear a atividade dessa molécula sempre foi considerado um desafio na oncologia.
Além de inibir o STAT3, os cientistas observaram que o composto aumentou os níveis da proteína PD-1, que está relacionada à resposta imunológica contra o tumor. Isso indica que o remédio atua em duas frentes: reduz o crescimento do câncer e estimula o próprio organismo a combatê-lo.
Do consultório veterinário ao laboratório
A ideia de testar o medicamento em gatos veio de uma conversa entre a pesquisadora Jennifer Grandis e sua irmã, que é veterinária. Ela relatou que os felinos com esse tipo de câncer costumam sobreviver apenas de dois a três meses após o diagnóstico, já que os tratamentos atuais são pouco eficazes.
“Existe uma semelhança notável entre o HNSCC em humanos e em gatos, tanto no comportamento clínico quanto nos aspectos histológicos e imunológicos”, escreveram os autores do estudo.
O caso de Jak
Um dos pacientes foi Jak, um gato preto de 9 anos que recebeu apenas seis a oito semanas de expectativa de vida após o diagnóstico. Inscrito no estudo, ele passou por quatro sessões semanais e teve alívio dos sintomas — como o excesso de lágrimas em um dos olhos.
Com o tratamento experimental, Jak sobreviveu mais de oito meses, o suficiente para acompanhar momentos marcantes da família. “Ele passou mais um Natal conosco e viu meus filhos terminarem os estudos. Foi um presente tê-lo por mais tempo”, contou Tina Thomas, dona do animal.
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Segundo os pesquisadores, os gatos oferecem um modelo mais realista para o desenvolvimento de terapias oncológicas do que os camundongos de laboratório. Isso porque eles compartilham o mesmo ambiente que os humanos, têm maior diversidade genética e tumores mais heterogêneos, semelhantes aos das pessoas.
“Esses animais respiram o mesmo ar que respiramos e enfrentam as mesmas exposições ambientais. Isso os torna modelos muito melhores para prever como os medicamentos vão agir em humanos”, explica Daniel Johnson, da Universidade da Califórnia em São Francisco, um dos coordenadores do estudo.
Próximos passos
Os cientistas agora trabalham com uma empresa de biotecnologia para levar a nova droga a ensaios clínicos em humanos. O projeto recebeu apoio do National Institutes of Health (NIH) e do Centro de Saúde Animal da Universidade da Califórnia Davis.
“Pesquisas clínicas em animais de estimação nos permitem aprender muito sobre os medicamentos e, ao mesmo tempo, oferecer benefícios reais a esses pacientes”, afirmou Grandis.
Se os resultados se confirmarem em humanos, a descoberta pode inaugurar uma nova geração de terapias direcionadas para tumores de cabeça e pescoço — doenças com altas taxas de mortalidade e necessidade urgente de tratamentos mais eficazes.
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